Ciúmes

Ciúmes

O ciúmes costuma ser entendido como um fenômeno intrapsíquico. No entanto, quando ampliamos o olhar para o campo social e histórico nos quais relacionamentos são produzidos, é possível compreendê-lo como um afeto socialmente aprendido e politicamente regulado.

O ciúmes não surge de forma espontânea. Ele emerge em um campo que estabelece normas sobre quem pode amar, como pode amar e até onde é possível desejar um outro corpo. Essas normas não se apresentam apenas como proibições diretas, mas como expectativas naturalizadas sobre compromisso, exclusividade e fidelidade. Trata-se de uma forma de biopolítica, na qual os corpos são disciplinados para garantir previsibilidade, controle e estabilidade em contextos marcados pela incerteza.

O modelo do amor romântico exerce um papel central nesse processo. Ele ensina que o cuidado se expressa por meio da vigilância, que o vínculo se sustenta pela exclusividade e que o medo da perda é sinal de envolvimento verdadeiro. Esses aprendizados buscam legitimar práticas de controle nos relacionamentos e produzindo ansiedade, rivalidade e sensação de escassez afetiva.

Na prática clínica

Na clínica, o ciúmes aparece frequentemente como uma demanda por solução. Uma escuta clínica comprometida com o campo, porém, não pode se limitar à tentativa de ajustar a pessoa consulente a uma norma social. É preciso reconhecer que o ciúmes também é sintoma de dispositivos relacionais que organizam vínculos a partir do controle e da posse, estes sim as causas que merecem investigação terapêutica.

Naturalizar o ciúmes como prova de amor impede que ele seja questionado. O dispositivo do amor romântico transforma esse afeto em virtude e sustenta a ideia de que controlar é cuidar. Essa lógica produz sofrimento, ao mesmo tempo em que legitima formas nem sempre explícitas de violência e de abuso.

Trabalhar o ciúmes, clínica e politicamente, não significa negá-lo ou moralizá-lo. Significa perguntar a quem ele serve, o que ele sustenta e que formas de vida ele ajuda a manter. Desnaturalizar o ciúmes é um gesto que devolve aos corpos a possibilidade de escolher como se relacionar, com quem se relacionar e sob quais condições afetivas e éticas esses vínculos podem ser sustentados.


Estou com horários disponíveis para atendimentos individuais e para casais, além de outros arranjos afetivo-sexuais. Também estou disponível para supervisão em temas de gênero e sexualidade. Somente na modalidade online.



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.


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