Cada um de nós aprende a se relacionar dentro de um sistema colonial e capitalista. Esse aprendizado não acontece apenas na esfera econômica ou no mundo do trabalho. Ele atravessa também o modo como estabelecemos, sustentamos ou interrompemos contatos ao longo da vida. Chamamos aqui de relações utilitárias aquelas atravessadas por essa lógica.
Nesse contexto, torna-se comum que relações sejam organizadas a partir da lógica da finalidade. Espera-se que relações cumpram funções: constituir família, garantir sobrevivência, facilitar acesso a oportunidades, oferecer algum tipo de suporte ou vantagem.
Como podemos definir relações utilitárias?
Relações utilitárias podem ser definidas como aquelas mediadas pela finalidade que podem cumprir. Nelas, o encontro com o outro deixa de ser significativo e nutritivo, servindo apenas para atender a determinado propósito.
Isso pode aparecer de muitas formas na vida cotidiana: um contato profissional mantido apenas enquanto abre portas, uma amizade acionada quando é necessário algum tipo de ajuda, um encontro sexual casual.
Nesse tipo de dinâmica, o contato passa a ser orientado por certas perguntas intencionais, mesmo que não conscientes: o que essa pessoa pode me oferecer agora? Quanto isso irá me custar? O que eu perco se essa relação acabar?
Relações utilitárias como ajustamento criativo
Na Gestalt-terapia, compreendemos os modos de relação como ajustamentos criativos. Ou seja, são recursos que o organismo encontra para sobreviver e se orientar dentro de determinado contexto histórico, social e cultural.
Sob essa perspectiva, relações utilitárias não surgem simplesmente de uma escolha individual ou de um “defeito” moral. Elas podem ser compreendidas como recursos aprendidos em contextos marcados pela escassez, pela competição e pela instrumentalização das relações humanas.
Em um mundo organizado pela lógica da produtividade e da vantagem, torna-se quase inevitável que esse paradigma também atravesse a vida afetiva.
A lógica do uso nas relações
Quando relações passam a ser organizadas principalmente pela utilidade, as pessoas começam a ser tratadas como meios para atingir determinados fins.
Nesse ponto, a dinâmica relacional se aproxima da lógica perversa do capital: usar, descartar, substituir.
Assim como o capitalismo trata territórios, recursos naturais e força de trabalho como se fossem infinitos, as relações utilitárias podem produzir a sensação de que pessoas são sempre substituíveis. Como se houvesse sempre alguém disponível para ocupar o mesmo lugar.
Solidão e fragilidade das relações
Quando o contato é mediado principalmente pela utilidade, torna-se difícil sustentar relações significativas e nutritivas, ou seja, aquelas capazes de produzir reconhecimento, cuidado e pertencimento.
Na clínica, isso aparece muitas vezes como rupturas frequentes, dificuldade de sustentar contato e uma sensação persistente de solidão.
Uma solidão que pode existir mesmo quando há muitas pessoas por perto. Porque quantidade de relações não é o mesmo que encontro. E relações organizadas pelo uso raramente conseguem sustentar experiências profundas de comunidade.


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