Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

Liberdade

Falar de liberdade é uma tarefa complexa. Muitas vezes, aparece como sinônimo de fazer o que se quer. Em outras, surge como poder de escolha, autonomia ou independência.

Jean-Paul Sartre propõe uma compreensão mais exigente e inquietante na qual liberdade é parte da condição da existência humana. E, justamente por isso, também é angústia.

Como definir liberdade?

“É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, pois ele não se criou a si mesmo, e, por outro lado, contudo, é livre, já que, uma vez lançado ao mundo, é o responsável por tudo que faz.”
Jean-Paul Sartre em O Existencialismo é um Humanismo

Nessa formulação aparece um ponto central do existencialismo sartreano: não escolhemos nascer nem as condições nas quais nascemos, mas, ainda assim, somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que nos acontece.

Liberdade não apaga os limites das relações estabelecidas neste mundo. Não elimina a situação concreta em que cada existência se dá, mas também não desaparece por causa desses limites.

Liberdade não é impulso

Agir imediatamente. Deixar-se levar. Responder sem demora ao que se apresenta. Tudo isso pode parecer espontâneo. E, por isso, pode parecer livre.

Mas espontaneidade é liberdade?

Se o impulso já se aproxima de precipitação, automatismo ou repetição, talvez estejamos menos diante de uma escolha e mais diante de um agir já conhecido e pouco questionado. Nesse caso, a ação pode até acontecer rapidamente, mas não significa que tenha sido assumida com consciência.

Liberdade não é agir de qualquer maneira. É sustentar que a ação é minha. É reconhecer que, mesmo quando ajo sem refletir muito, continuo implicada no que faço. Em outras palavras, liberdade não se mede pela velocidade da resposta. Ela se mede pela implicação com a escolha.

Liberdade não é consumo

Na vida contemporânea, muitas vezes se vende a ideia de que ser livre é poder escolher entre objetos, imagens, experiências, estilos de vida e determinadas relações. Como se o acesso a determinadas opções, por si só, garantisse uma existência livre.

Mas a diversidade de escolha garante a produção de sentido para a própria existência?

Em uma sociedade organizada pela lógica do capital, até a ideia de liberdade pode ser transformada em produto. Compra-se a imagem de autonomia. Consome-se a fantasia de singularidade. Desejam-se objetos e experiências como sinais de poder, prestígio ou pertencimento.

Nesse cenário, convém perguntar: performar poder é o mesmo que exercer liberdade?

Liberdade não é privilégio

Poder circular sem obstáculos, falar sem ser interrompida ou silenciada e ocupar espaços de desejo, reconhecimento e decisão. Tudo isso faz diferença neste mundo que se apresenta de modo tão desigual. Seria ingenuidade ignorar isso.

Nem todas as pessoas encontram o mesmo mundo diante de si, com as mesmas condições para escolher. Muito menos todas têm o mesmo grau de segurança para sustentar uma posição, romper um vínculo, afirmar um desejo ou recusar uma imposição.

Seria, então, privilégio e liberdade a mesma coisa?

Mesmo situadas em condições muito distintas, seguimos sendo chamadas a responder pelo que fazemos, pelo que evitamos e pelo modo como nos colocamos no mundo.

Não devemos ignorar a violência das estruturas sociais, mas não significa que devemos reduzir a existência humana a elas. Há situações, limites e coerções, mas há também respostas, posicionamentos e escolhas possíveis.

A liberdade é sempre situada

A liberdade não acontece fora do mundo. Ela não é abstrata. Não é pura interioridade. Não é uma experiência isolada da história, do corpo, das relações e das condições materiais.

Somos livres em situação.

Isso quer dizer que a liberdade nunca parte do zero. Ela sempre se dá em meio a circunstâncias concretas. Classe, gênero, raça, sexualidade, normas sociais, expectativas familiares, condições de trabalho, violências e interditos compõem o campo em que a existência se move.

Por isso, liberdade não é poder fazer qualquer coisa. É responder a partir da situação.

Escolha e responsabilidade

Escolher não é apenas afirmar uma vontade. É também renunciar a outras possibilidades, sem garantias ou certezas.

A existência precede a essência. Não há destino possível que nos livre da tarefa de escolher.

Liberdade está ligada à responsabilidade. E responsabilidade, aqui, não é culpa moral. É autoria. É reconhecer que a própria vida não pode ser totalmente terceirizada. Nem sempre queremos sustentar essa condição. Muitas vezes, buscamos escapar da liberdade. Fazemos isso quando fingimos ser apenas aquilo que esperam de nós. Ou quando agimos como se não houvesse escolha alguma. Ou, ainda, quando nos escondemos atrás de papéis, normas, justificativas prontas e identidades rígidas, como se nada pudesse ser diferente.

Esse movimento é o que Sartre chama de má-fé: tentativa de fugir da própria condição de ser livre.

Talvez, então, liberdade esteja menos no poder e mais em sustentar a autoria possível da própria existência. Isto é, a capacidade de reconhecer necessidades, interesses e desejos na relação com este mundo e, a partir disso, fazer escolhas a partir de possibilidades possíveis.

Considerações finais

Liberdade não é sinônimo de impulso, consumo ou privilégio. Também não é uma experiência plena, leve e igualitária. É condição situada da existência por ser atravessada por limites concretos, relações de poder e desigualdades históricas.

Somos continuamente convocadas a escolher e isso implica angústia, responsabilidade, renúncia e desamparo. É reconhecer que não há respostas prontas e admitir que, mesmo em condições adversas, há sempre alguma escolha possível.



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.


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