Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

Teoria Paradoxal da Mudança

A Teoria Paradoxal da Mudança, uma formulação do psiquiatra e Gestalt-terapeuta Arnold Beisser, é uma das ideias da Gestalt-terapia que mais aprecio. Seu ponto principal é que a mudança acontece quando alguém pode se tornar aquilo que é, e não quando tenta se tornar aquilo que não é.

Como definir a Teoria Paradoxal da Mudança

Muitas pessoas procuram psicoterapia porque desejam mudar. Querem deixar de sentir, agir ou se relacionar de determinado modo. No entanto, é frequente que a busca pela mudança seja motivada pela rejeição do modo como a pessoa se percebe diante de alguma demanda identificada no ambiente.

Para Beisser, a pessoa terapeuta não deveria ocupar o lugar de agente externo promotor da mudança. A função da terapia não é corrigir, convencer ou conduzir a pessoa consulente a um ideal de funcionamento. O trabalho clínico consiste em favorecer que a pessoa possa se permitir estar onde está e, a partir daí, ver o que acontece. 

Isso não significa aceitação pura e simples de uma situação desfavorável. Significa que não é possível mudar quem se é diante do que ainda não foi suficientemente reconhecido, o que torna a awareness um elemento central do processo terapêutico. Antes de tentar deixar de ser “assim”, é preciso perceber como esse “assim” aparece e que função cumpre.

Por que mudança não precisa ser tentar ser outra pessoa? 

Beisser critica as formas de terapia que tentam produzir mudança por imposição, persuasão ou controle. Na perspectiva gestáltica, a mudança emerge quando partes antes alienadas podem ser reconhecidas como próprias. Assim, aquilo que parecia cristalizado pode voltar a ser vivido como processo e movimento.

A relação terapêutica, portanto, não se organiza entre alguém que sabe algo e alguém que precisa ser consertado. Quando a pessoa terapeuta assume esse lugar, pode reforçar uma visão hierarquizada da experiência clínica. A clínica gestáltica busca sustentar outra possibilidade, na qual a pessoa consulente possa entrar em contato com sua experiência sem precisar imediatamente negá-la. 

É importante considerar que Beisser também amplia essa compreensão para a mudança social. Sistemas sociais, assim como indivíduos, transformam-se não pela fixação de privilégios e opressões, mas pelo reconhecimento e pela integração da diversidade. 

A Teoria Paradoxal da Mudança desloca a psicoterapia da tentativa de correção quase ortopédica do modo de ser-no-mundo para um reconhecimento radical de quem se é. Mudar não é tentar violentamente ser outra pessoa. É poder estar presente na situação que se apresenta, até que a própria experiência encontre novas possibilidades possíveis.

Referência

BEISSER, Arnold. The Paradoxical Theory of Change. Disponível em <https://ngfo.no/wp-content/uploads/2017/06/THE-PARADOXICAL-THEORY-OF-CHANGE-beisser.pdf>. Acesso em 04/05/2026.



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.



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