Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

Tecendo uma rede afetiva

rede afetiva

Falar em rede afetiva é deslocar o foco da ideia de que a vida se organiza prioritariamente em torno de um único vínculo central, geralmente representado pela entidade “casal” ou pela família nuclear. A noção de rede afetiva permite reconhecer que a sustentação da vida não acontece apenas pela possibilidade do casamento, mas em uma trama complexa e rica de relações comunitárias interdependentes.

O que é uma rede afetiva?

Rede afetiva pode ser compreendida como a trama de atores humanos e não humanos que participam da sustentação da existência, seja afetiva ou material. É essa rede que possibilita trocas significativas e nutritivas essenciais à condição humana.

Embora os afetos sejam frequentemente compreendidos no senso comum como algo que acontece apenas entre duas pessoas de modo romântico, eles emergem em uma trama mais ampla, na qual diferentes atores agenciam vínculos. Um namoro, por exemplo, pode emergir a partir da intermediação de amigos em comum da mesma forma que do algoritmo de um aplicativo de relacionamento.

É nessa trama que a vivência ganha contornos, sentidos e possibilidades, tornando possíveis diferentes formas de cuidado, reconhecimento, memória e pertencimento.

Para além do casal

Essa compreensão dialoga com a crítica à centralidade da entidade “casal” como eixo privilegiado de organização da vida afetiva. Em contextos atravessados pelo ideal do amor romântico, espera-se que uma única pessoa seja capaz de suprir necessidades emocionais diversas e complexas. A ideia de rede afetiva questiona essa expectativa e evidencia que a sustentação subjetiva se dá, de modo mais amplo, na circulação entre diferentes vínculos.

Pensar em rede afetiva também ajuda a compreender por que pedir ajuda, compartilhar dificuldades ou buscar companhia não é sinal de fraqueza ou incapacidade individual. A autonomia, muitas vezes valorizada como independência, pode ganhar novos significados quando reconhecemos que viver é estar-com.

Reconhecer a própria rede

Do ponto de vista da Gestalt-terapia, a rede afetiva pode ser compreendida como parte do campo organismo/ambiente em que a experiência se constitui. Relações mediadas pelos afetos não são apenas cenário, mas elementos ativos na produção de awareness, na possibilidade de ajustamentos criativos e na construção de sentidos.

Rede afetiva não é uma lista fixa e limitada de contatos, nem uma obrigação moral de manter laços a qualquer custo. Trata-se de uma rede viva, que se modifica ao longo do tempo, acompanhando movimentos de aproximação, afastamento, ruptura e reconexão. Algumas presenças tornam-se mais centrais em determinados momentos da vida, outras permanecem como referências de fundo.

Reconhecer a própria rede afetiva pode ser um exercício clínico potente. Muitas vezes, pessoas chegam à psicoterapia com a sensação de estarem sozinhas só porque não estão em um relacionamento afetivo. No entanto, ao olhar com mais atenção, percebem que existem vínculos possíveis de serem acionados, fortalecidos ou ressignificados. Em outros casos, as possibilidades de apoio, cuidado e sustentação encontram-se reduzidas ou concentradas em poucos vínculos, o que também pode emergir como tema de trabalho clínico.

Falar em rede afetiva, portanto, é falar da dimensão relacional da existência sem reduzi-la à lógica de um único vínculo privilegiado. É reconhecer que o cuidado, o apoio, o afeto e a sustentação circulam por múltiplos caminhos e que essa circulação é parte fundamental da experiência de estar no mundo.

Referências: este texto é livremente baseado nas obras de Geni Núñez, Donna Haraway, Bruno Latour, além de teóricos queer.



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.



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