Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

Cansaço afetivo

cansaço afetivo

Há períodos em que iniciar uma nova relação, seja ela qual for, parece exigir uma energia que simplesmente não existe. A necessidade e o desejo permanecem, mas falta disponibilidade para dar início a esse processo. Conhecer alguém, aceitar um convite, responder mensagens ou até começar um livro novo pode parecer mais do que o campo organismo/ambiente consegue sustentar naquele momento. Criar espaço para mais uma relação, qualquer que seja sua natureza, torna-se um esforço. Tenho encontrado esse fenômeno com frequência na clínica e passei a pensá-lo como uma forma de cansaço afetivo. 

É comum que essa experiência seja interpretada como medo de compromisso, trauma ou decepção. Essas possibilidades existem, mas talvez não expliquem todos os casos. Em alguns momentos, talvez estejamos, antes de mais nada, cansados. 

Como o cansaço afetivo afeta a awareness

Toda relação exige disponibilidade. Escutar, negociar diferenças, lidar com frustrações, reconhecer limites, acolher conflitos e construir confiança fazem parte de qualquer encontro significativo. Construir vínculos sempre exigiu trabalho. O que parece ter mudado é a quantidade de trabalho exigida pela elaboração da própria experiência.

Vivemos em uma época em que quase toda experiência é acompanhada por um convite permanente à elaboração. Espera-se que nomeemos emoções, comuniquemos necessidades, revisemos nossos comportamentos, negociemos acordos, identifiquemos padrões e estejamos continuamente atentos ao impacto que produzimos sobre os outros. Essas práticas podem ampliar nossas possibilidades de contato, mas qual é o custo disso?

Quando toda experiência relacional passa a exigir elaboração constante, a própria awareness parece ser capturada pela lógica da produtividade. Em vez de favorecer o contato, a consciência passa a funcionar como mais uma tarefa que nunca termina.

Nesse cenário, o cansaço afetivo talvez não seja uma recusa aos vínculos. Talvez seja um sinal de que o campo organismo/ambiente já não dispõe do que é necessário para realizar esse investimento de energia devido a esse cansaço afetivo.

Elaborar a experiência

Elaborar a própria experiência pode ampliar o exercício da liberdade, em vez de necessariamente reduzi-lo. Isso passa por reconhecer necessidades, perceber ajustamentos desatualizados e compreender os próprios modos de relação com o mundo. Tudo isso pode favorecer novas e boas possibilidades de contato. 

Ainda assim, elaborar também exige trabalho.

Não parece possível permanecer continuamente disponível para observar a si mesmo, nomear cada experiência, rever cada escolha e sustentar awareness diante de tudo o que acontece. Pelo menos, não nas condições de um mundo que exige tanto e tão rapidamente. 

Talvez exista um equívoco, e aqui faço um mea culpa enquanto psicoterapeuta, em considera que uma vida mais consciente dependa de um estado permanente de elaboração.

A interrupção é possibilidade

Na Gestalt-terapia, awareness não é um ideal de vigilância permanente sobre si mesmo. Emerge quando o campo oferece condições para que uma figura se forme e possa ser experimentada.

Isso significa que também existem momentos é preciso interromper investimentos, deixar experiências repousarem ou simplesmente não produzir novos sentidos. Nem toda pausa ou interrupção representa evitamento e precisa ser verificada. Em alguns momentos, pode ser justamente essa pausa que permite ao campo organismo/ambiente recuperar os requisitos para uma relação.

Uma última pergunta

Talvez a questão não seja descobrir por que alguém deixou de se relacionar por causa de um cansaço afetivo e sim quais condições para investir em novas relações. Enquanto buscamos respostas para essa pergunta, talvez valha a pena desconfiar da ideia de que toda pausa precisa ser corrigida. Em alguns momentos, descansar também pode ser uma forma de possibilitar um encontro futuro. Torna-se, então, tarefa da terapia entender como prover um bom descanso diante das demandas relacionais descritas.

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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.



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