Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

O mal como parte do cenário

Hannah Arendt chamou de banalidade do mal uma coisa muito mais perturbadora do que a existência de pessoas capazes de fazer coisas terríveis. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, ela se deparou com alguém que não correspondia à imagem de um sujeito excepcionalmente perverso. O que lhe chamou atenção foi a aparente incapacidade de pensar sobre aquilo que fazia, como se regras, funções e procedimentos pudessem substituir o julgamento. A banalidade do mal, portanto, não está na gravidade do ato e sim na na possibilidade de que seja praticado sem que seus participantes interrompam o fluxo automático da ação para questioná-la.

Essa ideia nos leva a uma questão que ultrapassa o contexto histórico analisado por Arendt: o que acontece quando determinadas formas de violência se tornam tão familiares que deixam de aparecer? Uma desigualdade, uma humilhação, uma relação de poder ou uma violência podem permanecer presentes e, ainda assim, deixar de constituir figura.

Na perspectiva gestáltica, figura e fundo se organizam continuamente no campo organismo/ambiente. Perceber não é simplesmente registrar aquilo que existe, mas permitir que algo ganhe relevância suficiente para ser reconhecido, sentido e elaborado. E o fundo também é produzido. Aquilo que aprendemos a considerar normal pode permanecer ali, diante de nós, sem jamais exigir nossa atenção.

O privilégio de não precisar perceber

Privilégio não significa apenas ter acesso a recursos, proteção ou oportunidades. Pode significar também não precisar perceber determinadas dimensões da realidade. Quem raramente precisa considerar a vulnerabilidade do outro pode não desenvolver a mesma capacidade de reconhecê-la; quem está habituado a ter sua interpretação tomada como referência pode não precisar questioná-la; quem é frequentemente protegido das consequências de suas ações pode ter menos oportunidades de desenvolver recursos para perceber e reparar aquilo que produz.

Não se trata de afirmar que privilégio produz automaticamente insensibilidade ou incompetência. A questão é mais sutil: determinadas posições sociais podem reduzir a necessidade de desenvolver capacidades que outras pessoas são obrigadas a desenvolver para existir no mundo. Talvez exista, então, uma forma de incompetência que permanece invisível justamente porque o ambiente a sustenta. Uma pessoa pode não saber escutar, perceber limites, negociar diferenças ou reconhecer sua participação em uma situação e, ainda assim, continuar sendo considerada competente. Outras pessoas compensam, instituições absorvem, alguém realiza o trabalho invisível ou as consequências recaem sobre quem possui menos poder.

A incompetência não desaparece. Ela simplesmente não precisa aparecer para quem está protegido de seus efeitos.

O outro que pensa por nós

Os grupos também participam desse processo. Eles oferecem pertencimento e referências para a experiência, mas podem igualmente fornecer respostas prontas para aquilo que deveria ser objeto de julgamento: “é assim mesmo”, “todo mundo faz”, “foi só uma brincadeira”, “não foi nada demais”, “é o procedimento”. Essas frases encerram a experiência antes que ela possa se transformar em pergunta. Quando uma resposta já está disponível antes que a situação possa ser realmente percebida, pensar se torna desnecessário.

A diferença entre obedecer e julgar torna-se, então, fundamental. Obedecer pergunta qual é a regra; julgar pergunta se aquela regra dá conta do que está acontecendo aqui. Nenhum procedimento conhece completamente uma situação concreta, assim como nenhuma categoria substitui a percepção do encontro. A responsabilidade começa justamente onde termina a possibilidade de simplesmente dizer que estávamos seguindo uma regra, um protocolo ou uma expectativa coletiva.

Não é necessário concordar conscientemente com uma violência para participar de sua normalização. Pode bastar não interrompê-la.

O que deixamos no fundo

É aqui que a reflexão de Arendt encontra a Gestalt-terapia de maneira particularmente fértil. Se a banalidade do mal envolve a perda da capacidade de pensar e julgar diante daquilo que fazemos, a presença pode ser compreendida como uma resistência à automatização da experiência. Estar presente não significa prestar atenção a tudo o tempo inteiro, mas poder perceber quando algo pede atenção, sustentar a tensão de não saber imediatamente o que aquilo significa e permitir que uma experiência desorganize uma explicação pronta.

Isso também significa reconhecer que aquilo que conseguimos perceber não depende apenas de nossa disposição individual. Há condições para que uma experiência possa se tornar figura, e o campo organismo/ambiente participa continuamente dessa organização. Algumas coisas encontram espaço para emergir, enquanto outras são repetidamente devolvidas ao fundo. Há experiências que precisam ser nomeadas inúmeras vezes para serem reconhecidas, enquanto outras são tomadas como evidentes sem jamais precisarem se explicar. Ainda assim, é preciso considerar os requisitos para que essa percepção possa acontecer.

Um corpo cansado é um corpo com menos condições de interromper o automático, refletir e deixar que o novo emerja.

Talvez uma tarefa ética seja devolver estranheza àquilo que se tornou familiar demais. Olhar novamente para o que já não vemos, perguntar novamente sobre aquilo que parece óbvio, permitir que algo relegado ao fundo volte a se tornar figura. Perceber não é ainda transformar, mas sem percepção dificilmente existe transformação.

Pensar é interromper

O mundo se torna perigoso quando conseguimos funcionar muito bem dentro dele sem precisar realmente percebê-lo. E talvez seja por isso que pensar seja, ao mesmo tempo, uma experiência filosófica, política e clínica. Pensar interrompe. A presença interrompe. O contato interrompe. Não para destruir o que existe, mas para não confluir com sistemas estruturados de privilégio e opressão.

Talvez pensar em Arendt seja justamente isso: interromper por um instante aquilo que já sabemos, aquilo que já nomeamos, aquilo que já aprendemos a considerar normal. Permitir que a experiência nos afete antes de encaixá-la em uma explicação conhecida. Perceber o que estava ali o tempo todo, mas que o modo como organizamos nossa experiência não permitia que aparecesse.

Porque aquilo que permanece no fundo não deixa necessariamente de existir. Pode apenas ter deixado de nos convocar.

Talvez o trabalho ético comece quando alguma coisa volta a nos convocar. Quando conseguimos estranhar o que parecia natural, sustentar a presença diante do que nos incomoda e perguntar, ainda sem saber exatamente a resposta: o que estou vendo agora que antes não conseguia ver?



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.



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