Psicóloga Simone Villas Bôas Saraiva

Relações, gênero, sexualidade e sofrimento contemporâneo

CRP 06/177991

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Questões de gênero nas relações não monogâmicas

gênero nas relações monogâmicas

Falar sobre relações não monogâmicas costuma nos levar rapidamente para discussões sobre ciúme, acordos, comunicação e diferentes formas de organizar a rede afetiva. Entretanto, há uma dimensão que nem sempre recebe a mesma atenção: estas relações continuam sendo vividas por pessoas socializadas em um ambiente marcado por relações assimétricas de poder.

Abrir uma relação não significa, por si só, desfazer as normas sociais que constituíram as pessoas que se relacionam. Gênero não é apenas uma característica individual, e sim uma relação de poder. As expectativas sociais sobre o que homens e mulheres devem fazer, sentir e desejar são produzidas culturalmente e aparecem tanto na vida pública quanto na privada.

Por isso, talvez seja importante perguntar o que acontece com as desigualdades de gênero quando se rompe com a monogamia.

A liberdade não começa quando abrimos a relação

Um dos fenômenos que aparece com frequência nas relações não monogâmicas é a percepção de que a liberdade não está igualmente distribuída.

Há mulheres que experimentam a própria liberdade como algo difícil de sustentar. Não necessariamente porque não desejem outras relações, experiências ou encontros, mas porque aprenderam que a continuidade dos vínculos depende de sua disponibilidade para cuidar, organizar, antecipar necessidades e sustentar as tarefas do cotidiano.

Esse fenômeno não é exclusivo das relações não monogâmicas. A divisão sexual do trabalho já produz uma distribuição desigual entre homens e mulheres tanto no trabalho remunerado quanto no trabalho doméstico e no cuidado de pessoas. O cuidado, em particular, foi historicamente naturalizado como atributo feminino.

A consequência é que algumas pessoas podem chegar à não monogamia carregando responsabilidades muito diferentes. Enquanto uma pessoa pode possuir tempo, energia e disponibilidade para conhecer alguém, outra pode precisar organizar a casa, cuidar de pessoas, lembrar compromissos, administrar conflitos e sustentar uma parte significativa da infraestrutura cotidiana da relação. A desigualdade pode não aparecer no acordo sobre a possibilidade de se relacionar com outras pessoas, mas aparece nas condições concretas para exercer essa liberdade.

A questão, então, não é simplesmente quem tem autorização para se relacionar com quem. É a crença de quem dispõe das condições concretas para exercer essa possibilidade.

A responsabilidade também pode ser generificada

Pessoas socializadas como homens são frequentemente estimuladas a desenvolver determinadas capacidades e desencorajadas a desenvolver outras. Enquanto autonomia, assertividade e independência podem ser valorizadas, a percepção das próprias necessidades, o reconhecimento da vulnerabilidade, a expressão da tristeza, a elaboração do medo e a capacidade de sustentar conversas difíceis podem receber menos espaço.

Isso não significa que homens tenham alguma incapacidade natural para a comunicação emocional. Significa reconhecer que uma socialização baseada em gênero também participa da formação das possibilidades disponíveis para uma pessoa sentir, perceber e agir.

Na Gestalt-terapia, o processo terapêutico passa por observar como normas sociais podem ser incorporadas à experiência. O sujeito pode aprender a ignorar sentimentos, emoções e desejos para corresponder a uma autoimagem desejada e às expectativas do ambiente.

A raiva não é, evidentemente, uma emoção exclusivamente masculina. Mas determinadas formas de socialização podem fazer com que ela seja um dos poucos afetos que encontram autorização social para aparecer entre homens.

Isso pode se tornar especialmente importante quando pensamos em violência de gênero. A dificuldade de reconhecer a própria experiência não produz inevitavelmente comportamentos violentos, mas pode se tornar autoagressão.

Por isso, falar de responsabilidade não significa culpabilizar. Significa considerar o processo pelo qual uma pessoa pode desenvolver recursos para reconhecer o que sente, perceber o que deseja, sustentar a frustração e responder na situação que se apresenta.

O ciúme pode estar dizendo mais do que parece

É nesse ponto que o ciúme ganha uma dimensão especialmente interessante.

Nas relações não monogâmicas, muitas experiências diferentes podem ser reunidas sob a mesma palavra. “Estou com ciúmes” pode significar medo de perder alguém, insegurança, sensação de exclusão, desejo de maior proximidade, desconforto com uma mudança, percepção de uma quebra de acordo ou sensação de que algo está sendo distribuído de maneira injusta.

Por isso, talvez seja mais produtivo não tomar o ciúme como uma definição acabada da experiência, mas como uma figura que pede investigação. O que está sendo vivido como desigual? Como responsabilidade e liberdade estão sendo experienciadas nesta relação? Como iniciar uma nova relação da melhor forma? Quem está sendo solicitado a compreender, enquanto o outro apenas comunica suas decisões?

A pergunta pode deslocar-se, então, de “como evitar o ciúme?” para “o que esta experiência está tentando evidenciar da própria relação descrita?”.

Essa mudança é importante porque nem todo conflito é resistência individual. Há impossibilidades que emergem das condições concretas do organismo naquele ambiente. Na perspectiva gestáltica, é necessário considerar o campo organismo/ambiente para compreender tanto os limites quanto as possibilidades de ajustamento criativo.

A experiência é semelhante em sua nomeação, mas não necessariamente em seu sentido.

Liberdade e responsabilidade não são opostos

Talvez uma das questões mais importantes para uma ética das relações não monogâmicas seja justamente a relação entre liberdade e responsabilidade.

Existe uma tendência a imaginar que liberdade significa não precisar responder a ninguém. Como se exercer a própria autonomia fosse incompatível com considerar os efeitos de nossas escolhas.

Há também o movimento oposto: imaginar que ser responsável por uma relação significa restringir a própria liberdade, renunciar a desejos ou colocar constantemente as necessidades do outro à frente das próprias.

Nenhum desses extremos parece suficiente para uma boa relação consigo e com o outro.

Toda relação exige diferenciação e integração. É preciso estar com o outro sem deixar de ser si mesmo, ao mesmo tempo em que se reconhece que esse si mesmo só existe em relação.

Por isso, liberdade e responsabilidade não devem ser compreendidas como forças contrárias. A liberdade sem responsabilidade pode transformar a autonomia em indiferença. A responsabilidade sem liberdade pode transformar o cuidado em obrigação.

Uma pessoa pode ser livre para desejar, escolher, partir, permanecer, experimentar e mudar de ideia. E, justamente por ser livre, precisa responder pelos efeitos de suas escolhas.

O desafio de construir relações para além da norma

Relações não monogâmicas podem abrir possibilidades importantes para questionar a centralidade da entidade “casal”, a exclusividade como requisito de segurança e a ideia de que existe uma única forma legítima de relação sexoafetiva, mas ela não está alienada desta sociedade.

As pessoas que constroem relações não monogâmicas também carregam histórias de socialização, além de marcadores sociais da diferença raça, classe, gênero, sexualidade, geração entre outros. Não existe uma rede afetiva possível que suspenda magicamente essas relações de poder. Uma abordagem interseccional permite justamente observar que diferentes posições de poder coexistem e que nenhuma análise de gênero pode ser isolada dos demais marcadores.

Talvez por isso a pergunta mais interessante não seja se determinada relação é suficientemente não monogâmica, mas quais possibilidades ela efetivamente produz para as pessoas que dela participam.

Uma relação pode abandonar a exclusividade sexual e continuar reproduzindo desigualdades. Pode distribuir parceiros de maneira não exclusiva e manter uma divisão tradicional do cuidado. Pode celebrar a liberdade e deixar para algumas pessoas a maior parte da responsabilidade pela sustentação da vida cotidiana.

Por isso, talvez uma ética das relações não monogâmicas precise de algo além do consentimento. Talvez precise de um bom exercício da liberdade e da responsabilidade. Não como normas universais sobre o modo correto de se relacionar, mas como perguntas abertas sobre as condições de existência que cada relação produz.

Na Gestalt-terapia, não se trata de prometer uma sociedade mais harmônica ou uma relação sem conflitos. Trata-se de reconhecer o mundo tal como ele é e investigar, no aqui e agora, quais são as possibilidades possíveis.

Talvez seja justamente esse o desafio: não construir relações perfeitas, mas relações em que mais pessoas possam existir com liberdade suficiente para serem si mesmas e responsabilidade suficiente para reconhecer que nunca são apenas si mesmas.



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Simone Villas Bôas Saraiva

Simone Villas Bôas Saraiva

CRP 06/177991
Psicóloga clínica, gestalt-terapeuta, especialista em gênero e sexualidade. Psicoterapeuta com experiência clínica com demandas de estresse, ansiedade e depressão.



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