Na Gestalt-terapia, o conceito de situação inacabada está relacionado à dinâmica de formação e fechamento de Gestalten. Uma experiência emerge como figura sobre um fundo, mobilizando a percepção e a ação do organismo em sua relação com o ambiente. Quando não encontra condições para ser assimilada de forma satisfatória, pode permanecer atuante no campo organismo/ambiente, participando da maneira como situações posteriores são vividas.
A situação inacabada não corresponde simplesmente a uma lembrança dolorosa ou a um assunto sem resolução consciente. Refere-se à permanência de uma experiência que continua participando da organização do contato.
Figura, fundo e temporalidade
Na Gestalt-terapia, o contato envolve a emergência de necessidades que orientam a percepção no campo organismo/ambiente. Quando a experiência encontra condições satisfatórias de desenvolvimento, conclusão e assimilação, pode integrar o fundo a partir do qual novas figuras emergem.
Polster e Polster (2001) incluem as situações inacabadas entre os elementos que compõem o fundo da experiência. Uma situação anterior pode voltar a adquirir relevância quando as condições atuais favorecem sua emergência como figura. Isso não significa que o passado se reproduza de maneira idêntica, mas que participa da maneira como o presente é vivido.
A perspectiva fenomenológica permite compreender essa relação sem separar rigidamente passado e presente. A experiência atual comporta uma dimensão histórica, mas não é determinada automaticamente por ela. Seu sentido se constitui na relação entre a história, as condições no aqui-e-agora e as possibilidades que se abrem no contato
Situação inacabada e psicoterapia
Na psicoterapia, a investigação parte da experiência tal como se apresenta. A awareness permite ampliar a percepção de como determinada situação participa dos sentimentos, das necessidades e das formas de responder ao ambiente.
A retomada de um episódio antigo ou a recorrência de um conflito não são suficientes, isoladamente, para caracterizar uma situação inacabada. É necessário compreender como a experiência se manifesta no presente e quais condições favorecem ou restringem sua assimilação.
As condições materiais e relacionais também precisam ser consideradas. Uma situação problemática pode continuar produzindo sofrimento porque as circunstâncias que a constituem permanecem presentes. Nesse caso, a elaboração subjetiva não substitui a transformação das condições ambientais.
A elaboração de uma situação inacabada não pressupõe esquecimento, reconciliação ou encerramento obrigatório. Trata-se de compreender como a experiência participa da organização do presente e quais possibilidades de contato podem se abrir a partir dessa compreensão.
Referência:
POLSTER, E., & POLSTER, M. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus, 2001.


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