A ansiedade é um dos temas mais recorrentes na minha experiência clínica. Ao longo dos anos, tenho acompanhado diferentes maneiras de vivenciá-la, em contextos muito distintos. A pandemia tornou particularmente evidente como acontecimentos coletivos, atravessados por insegurança, imprevisibilidade e ameaças concretas, repercutem na experiência individual. Mais recentemente, as dificuldades econômicas, a precarização do trabalho, as instabilidades nas relações afetivas e o cenário político também têm constituído fontes importantes de preocupação.
Não faltam motivos para estarmos preocupados. Mas tenho me interessado por uma questão que aparece com frequência na clínica: a dificuldade em renunciar à ansiedade como recurso para lidar com a realidade.
Existe uma associação bastante difundida entre preocupação e responsabilidade. Parece que estar preocupado é demonstração de maturidade, comprometimento e capacidade para lidar com a vida adulta. A expectativa de ser um adulto funcional parece incluir também a capacidade de antecipar problemas, prever riscos e demonstrar preocupação com tudo aquilo que pode sair do controle. Se estou angustiada com minhas finanças, demonstro que reconheço a importância de cuidar do meu dinheiro. Se me preocupo permanentemente com meu desempenho profissional ou minha saúde, parece que estou fazendo alguma coisa a respeito.
Preocupação e cuidado são a mesma coisa?
Podemos passar horas antecipando dificuldades financeiras sem conseguir organizar nossas despesas, imaginar repetidamente situações de fracasso profissional sem encontrar alternativas ou nos preocupar incessantemente com nossas relações afetivas sem conseguir estabelecer um diálogo sobre aquilo que nos incomoda.
Nessas circunstâncias, a preocupação pode oferecer a sensação de estarmos fazendo alguma coisa, mesmo sem produzir movimentos concretos em relação à situação. O sofrimento provocado pela antecipação dos problemas funciona quase como uma prestação de contas: estou preocupada, portanto sou responsável. Estou sofrendo, portanto estou levando a situação a sério.
A ansiedade não significa implicação
Em sua reflexão sobre a ansiedade na contemporaneidade, Ênio Brito Pinto aborda nossa relação com as possibilidades futuras. A capacidade de antecipar situações adversas faz parte da experiência humana e pode favorecer atitudes preventivas. Entretanto, a antecipação também pode nos aprisionar em tentativas de controle, especialmente diante de uma realidade que não oferece garantias.
Há ainda uma dimensão coletiva que não podemos desconsiderar. Vivemos em uma sociedade que individualiza responsabilidades e exige que cada pessoa encontre soluções para problemas frequentemente produzidos de maneira coletiva. A instabilidade econômica, a precarização do trabalho e as ameaças políticas não são questões que possam ser resolvidas exclusivamente por recursos individuais. Ainda assim, somos convocados a administrar individualmente seus efeitos, mantendo-nos produtivos, resilientes e emocionalmente disponíveis.
A preocupação pode se tornar, assim, uma tentativa de recuperar alguma sensação de controle sobre aquilo que nos escapa.
Na perspectiva da Gestalt-terapia, podemos compreender essa experiência a partir do conceito de ajustamento criativo. Nesse sentido, não devemos entender a ansiedade apenas como uma resposta inadequada. Ela pode constituir um recurso construído no campo organismo/ambiente, uma maneira possível de responder às condições e exigências de determinado campo. Em certas circunstâncias, antecipar riscos e permanecer em alerta pode ter sido justamente o que permitiu encontrar alguma organização diante de uma realidade ameaçadora.
O problema não está necessariamente na criação desse recurso, mas na possibilidade de ele se cristalizar e passar a ser utilizado indiscriminadamente, mesmo diante de situações que demandam outras respostas. Um ajustamento que fez sentido em determinado contexto pode se tornar obsoleto.
É aqui que a criatividade ganha importância. Não como capacidade de inventar soluções extraordinárias, mas como possibilidade de experimentar outras maneiras de responder à realidade. Criar significa também poder fazer diferente, reconhecer que uma resposta habitual não é a única disponível e ampliar o repertório de ajustamentos.
O trabalho terapêutico não consiste, portanto, em convencer alguém a deixar de se preocupar ou oferecer tranquilidade diante de situações incertas. Interessa-nos compreender a função que a ansiedade desempenha, reconhecer as condições em que esse recurso se constituiu e favorecer a experimentação de outras possibilidades: planejamento, diálogo, negociação, mobilização coletiva, reconhecimento de limites e elaboração das próprias impossibilidades.
Renunciar à ansiedade como recurso não significa renunciar à realidade, tornar-se indiferente ou deixar de se responsabilizar pela própria vida. Significa reconhecer que estar permanentemente preocupado não é condição para estar implicado naquilo que nos acontece.
Talvez precisemos questionar justamente essa associação: não é o sofrimento permanente que demonstra nosso compromisso com a vida. Podemos cuidar sem nos manter em estado de alerta, assumir responsabilidades sem antecipar incessantemente o pior e reconhecer a gravidade das circunstâncias sem transformar a preocupação na única maneira possível de enfrentá-las.


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